
PENSAMENTO CRÍTICO, ONDE ANDAS?
Pensamento crítico, onde andas? Foste dar um passeio e perdeste-te nas brumas da pós-modernidade, ou foste exilado por decreto silencioso, condenado à irrelevância por um tribunal de emojis e likes?
Outrora, eras o farol dos inquietos, o martelo dos dogmas, o perfume dos cérebros em flor. Hoje, és um vestígio arqueológico, uma relíquia incómoda, um verbo que já não se conjuga. E não, não foste embora por vontade própria. Foste empurrado com dedicação meticulosa para o fundo da gaveta onde se guardam os perigos: as ideias, as dúvidas, e as outras armas de destruição massiva.
A escola, esse cemitério de perguntas
Na escola, já não se ensina a pensar. Ensina-se a repetir, a decorar, a obedecer e a sorrir para o quadro como quem sorri para o abismo. O aluno que questiona é um incómodo. O que argumenta, uma ameaça. O que discorda, bem, esse tem um problema disciplinar.
Aulas de filosofia? Sim, mas sem filosofar. Aulas de história? Sim, mas sem interrogar o passado. Aulas de cidadania? Sim, mas sem cidadania activa, que isso dá trabalho e pode causar alergias institucionais.
Pensar é perigoso, pode levar à autonomia. E autonomia, como se sabe, é uma doença contagiosa.
Geração copy-paste
As novas gerações, coitadas, não têm culpa. Foram criadas num laboratório de algoritmos, alimentadas a fast-thought e educadas por influencers com vocabulário de três sílabas. São iguais porque foram moldadas para isso. A diferença é um bug, e a originalidade, um erro de sistema.
Vestem-se da mesma maneira, falam da mesma maneira, indignam-se da mesma maneira e quando pensam que pensam, estão apenas a repetir o que viram num vídeo de 15 segundos com música de fundo e legendas em Comic Sans.
A diversidade de pensamento foi substituída pela diversidade de filtros. E onde pára o pensamento crítico? Esse, não tem lugar no feed!
Não se admitem discrepâncias
Vivemos tempos em que pensar é um acto subversivo, e ter ideias próprias é um atentado à paz social. Formar julgamentos com base em argumentos é uma provocação. Avaliar dados com lógica é uma heresia, e questionar opiniões alheias é um crime de lesa-bolha.
E se, alguém se atrever a dizer em público aquilo que pensa (com fundamento, elegância e coragem), será imediatamente julgado, condenado e cancelado. Sem direito a apelo, sem direito a contexto, e sem direito a qualquer tipo de humanidade.
O novo código penal social é claro: Artigo 1.º — É proibido pensar. Artigo 2.º — É proibido discordar. Artigo 3.º — É proibido ser.
E que fazer?
Bem, é preciso resistir; pensar; perguntar; duvidar; desobedecer; desde que tal seja feito com inteligência, com ironia e com beleza.
É preciso criar espaços onde o pensamento seja bem-vindo. Educar para a dúvida e não para a certeza. Valorizar o erro como parte do caminho, e ensinar lógica, ética e filosofia; mas não como disciplinas, e sim como respirações.
E acima de tudo, é preciso ser-se exemplo. Mostrar que é possível discordar sem destruir. Que é possível pensar sem ferir e que é possível ser livre sem se estar só.
Pensar é um acto de amor
Pensar é amar a verdade, mesmo quando ela nos contradiz. É respeitar o outro, mesmo quando nos desafia e construir pontes, mesmo quando tudo nos empurra para as trincheiras.
O pensamento crítico não morreu. Está escondido, à espera de quem o convoque. E nós, temos esse poder. Não o desperdicemos. Não o adiemos. Não o temamos.
Porque ao fim e ao cabo, pensar é o que nos salva. E quem pensa, resiste. E quem resiste, vive!
Glossário
emojis – Símbolos que expressam emoções
likes – Gostos
copy-paste – Copiar e colar
fast-thought – Pensamento veloz ou Ideia instantânea
influencers – Influenciadores ou Agentes de influência
bug – Erro ou Falha
Comic Sans – Nome de uma fonte (tipo de letra)
Feed – Fluxo de notícias ou Fluxo de actividade

Activação continuada, de células dispersas de resistência e defesa pelo pensamento racional e crítico, como salvaguarda da liberdade intrínseca ao natural acto do pensamento.
Protejamos a frente e a retaguarda dessa batalha diária com os sempre presentes “cogito, ergo sum” coadjuvado pelo “cogito, ergo resisto”!!
ps – subtil e acutilante a colocação de um glossário.
Prezado Amigo José Fernando Magalhães. Que maravilha de texto. Muito Obrigado Luiz Sá.